quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Religião - Experiência Religiosa

Experiência Religiosa

A vontade de absoluto do Homem coincide com a sua busca de um sentido para a existência, existindo, muitas vezes, a necessidade de acreditar que há algo superior que nos protege e que explica a razão de ser da nossa existência.

O ser humano não é apenas um ser no mundo; mais um como os outros animais, as plantas, etc. Trata-se de um ser que tem como elemento fundamental a necessidade de um sentido.

Os homens precisam de motivos para a sua ação. Desde motivos utilitários, como razões para ter um trabalho, para se alimentarem, para tomarem esta ou aquela decisão, até motivos fundamentais que explicam o fato de se estar vivo e que permitem aceitar alguns aspectos da vida que se afiguram como inexplicáveis, como a fome mundial, a dor e a morte.

Assim, o Homem tem um pressentimento de que tudo tem um sentido, uma razão de ser, não se contentando em viver ao acaso, sem uma orientação superior. Por este motivo, e porque a vida parece indicar que, afinal, não faz sentido, quando acontecem coisas muito injustas ou incompreensíveis, há uma situação de paradoxo. Ou seja, algo indica que tem de haver um sentido, mas, depois, muito acontece que põe em causa a existência desse mesmo. Por isso, o Homem faz um exercício de procura. Tenta encontrar essas coordenadas que, tantas vezes, parecem fugir, em vários domínios diferentes. Alguns parecem encontrar esse tal sentido na existência de um ser superior que é Deus; outros o encontram na prática religiosa; há também quem dedique a sua vida a causas grandiosas, como fazer o bem diariamente ou tornar-se missionário, por exemplo; ou quem simplesmente encontre um sentido dentro de si mesmo.

Leibniz é um dos filósofos que defende que Deus confere sentido à existência. A única razão pela qual Homem e Mundo existem é porque Deus decidiu criá-los e criou o melhor dos mundos possíveis. Deus funciona como razão suficiente do mundo, ou seja, explica a sua existência. Contudo, existe o mal físico e moral neste mundo. Como conciliar a existência do mal com a perfeição de Deus? Leibniz afirma que o mal físico existe para que se realize um bem maior, conduzindo a um estado superior. O mal moral é da responsabilidade humana e deve-se ao mau uso que o Homem faz da liberdade, da possibilidade de escolha entre várias alternativas. Deus preferiu salvaguardar a liberdade humana que considera como um bem maior relativamente ao mal moral.

Falar de fenômeno religioso equivale, então, a responder à questão “o que é a religião?”. De uma forma sintética, mas, clara e redutora, podemos afirmar que a religião se caracteriza pela universalidade, pois, desde as sociedades primitivas até as modernas, os seres humanos manifestam crenças, atitudes e práticas de cunho religioso. A religiosidade pressupõe também uma atitude afetiva e valorizante; afetiva, no sentido em que é expressão de um sentimento de fascínio ou temor; valorizante, no sentido em que o domínio do sagrado é considerado superior ao do Homem…

Sagrado e Profano

Sempre que falamos em experiência religiosa do Homem perante o mundo, estamos, no fundo, a falar da experiência do sagrado. Ou seja, de uma divisão do mundo em dois níveis: o sagrado e o profano. Estamos a falar de uma divisão artificial, obviamente, que só se passa na cabeça das pessoas.

O domínio do sagrado será sempre aquele que se refere à divindade (em muitos e diferentes sentidos) e ao Homem enquanto espírito, ao intemporal, ao perfeito e superior; o profano estará sempre associado ao que se refere ao Homem enquanto corpo, ao mundano (que se refere ao mundo terrestre), ao perceptível pelos sentidos e razão humana e ao imperfeito.

O sagrado está sempre associado a sinais, rituais, que o Homem reconhece como manifestações de Deus; o Homem tem que respeitar (ou até venerar) o sagrado, aí está protegido.

Relativamente ao cristianismo, a Verdade revelada por Deus encontra-se nas Sagradas Escrituras, na Bíblia. Mas, aqui, levanta-se a questão da fé e da razão: se acredito, se tenho fé, então estas verdades são infalíveis e indiscutíveis porque me são reveladas por um Ser infinitamente superior e perfeito; se procuro racionalizar ou pensar racionalmente nos conteúdos da Bíblia, então chego muitas vezes a contradições que não posso resolver.

A fé é uma crença absoluta na existência de determinado fato, é uma convicção íntima, é a primeira das virtudes teologais, graças à qual acreditamos nas verdades reveladas por Deus.

Muitos filósofos medievais, como S. Tomás de Aquino, tentaram conciliar o domínio da fé e da razão. Ao interpretar os enunciados bíblicos racionalmente deveríamos chegar a Deus, provar a sua existência e a Verdade da sua palavra; todavia, esta via racional encontra inúmeros obstáculos. Assim, muitos autores partilham da opinião que só pela fé nos encontramos com Deus, ou seja, temos que acreditar.

Curiosamente, não temos conhecimento de sociedade humana que não atribua o domínio sagrado a alguma coisa; todas têm lugares sagrados, épocas sagradas, rituais, ações, etc. Apesar de alguns filósofos defenderem a dessacralização do mundo e da modernidade estar associada a uma negação do sagrado através da ciência (veio explicar racionalmente coisas que eram atribuídas a Deus e consideradas sagradas), esta noção de sagrado não deixa de existir, pois aproxima o Homem da sua ideia de Deus e torna-o mais digno, mais "importante".

Sacralização e dessacralização

No nosso século assistimos à ocorrência de dois fenômenos opostos, a sacralização e a dessacralização. Existia uma visão sacralizada do mundo, em que a fé dominava sobre a razão; a ciência do Homem era a religião e o seu grande objetivo era a salvação. O próprio mundo era ordenado por Deus. Contudo, surge um certo desencanto, uma certa desilusão face às respostas dadas pela religião, ou seja, inicia-se o processo de dessacralização. A razão suplanta a fé e a religião do Homem é a ciência; o Homem estipula como fim o conhecimento. O mundo já não é ordenado por Deus, mas pela ciência. Com a época das Luzes proclama-se a autonomia da razão, a liberdade e a separação de poderes. O sagrado perde terreno em favor do progresso tecnológico crescente, produto da razão humana.

Não obstante, o Homem apercebe-se que a ciência também não tem resposta para tudo, que não consegue solucionar todos os seus problemas, pelo contrário, traz-lhe problemas novos, bastante graves. E é este desencanto face às respostas científicas que originará o fenômeno da ressacralização. A razão e a fé procuram conciliar-se e equilibrar-se. Para o Homem a ciência e a religião tornam-se dois modos complementares de ver o mundo e o grande objetivo do ser humano é ser feliz, atingir a felicidade. O mundo já não é ordenado nem pela religião nem pela ciência, mas pelo próprio Homem.

Fonte – http://www.edusurfa.pt/mostra_pdf/?pdf=OFenomenoReligioso.pdf (adaptado)

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